Manuel de Freitas, Cinque poesie da “Poco allegretto”

Manuel de Freitas, Poco allegretto
Il ramo e la foglia edizioni 2021
Traduzione e introduzione di Roberto Maggiani

 

 

 

 

Cinque poesie

CASTELOS DE PORTUGAL

para o João Miguel Fernandes Jorge

A taberna da Cruz do Campo
onde cheguei tão novo – queria-vos
falar, mas não recordo bem,
da bicicleta que me levou, antes
de pedir (deve ter sido) a laranjada
que prenunciava outros hábitos.
O taberneiro tinha o que se esperava:
uns restos de vida e de inquéritos
mornos que chegaram para saber
que a filha dele e a minha mãe
haviam sido colegas, passeando
talvez não muito longe em desiguais
bicicletas. No pequeno mundo.

Também já não existirá, suponho,
a taberna de Pontével quase
em frente à igreja, onde entrei e saí
assustado com o vinho escuro que
iluminava no vómito do balcão os rostos.
Aí quis morrer, em vez da «mentira do amor».

Apenas a terceira obedecerá ao título,
fazendo cair sobre mim a metáfora:
ficava em Penedono e esperava,
depois da juventude, o fim.
Sob o castelo – alto, preenchendo o Verão –
onde alguém me levou e nunca mais amei.

Era a isso que eu chamava o meu país,
ruínas que não quero juntar.

 

CASTELLI DEL PORTOGALLO

per João Miguel Fernandes Jorge

Della taverna di Cruz do Campo
dove sono arrivato così giovane – vorrei
parlarvi, ma non ricordo bene,
della bicicletta che mi ha portato, prima
di chiedere (così mi pare) l’aranciata
che preannunciava altre abitudini.
Il taverniere aveva quello che ci si aspettava:
alcuni resti di vita e di indagini
tiepide che sono arrivate a sapere
che sua figlia e mia madre
erano state colleghe, passeggiando
forse non troppo lontano su diverse
biciclette. Nel piccolo mondo.

Né ci sarà più, suppongo,
la taverna di Pontével quasi
di fronte alla chiesa, dove sono entrato e uscito
spaventato con il vino scuro che
illuminava nel vomito del bancone i volti.
Lì ho desiderato morire, invece della «menzogna dell’amore».

Solo la terza obbedirà al titolo,
facendo cadere su di me la metafora:
alloggiavo a Penedono e attendevo,
dopo la giovinezza, la fine.
Sotto il castello – alto, che riempiva l’estate –
dove qualcuno mi ha portato e mai più ho amato.

Era questo che io chiamavo il mio paese,
rovine che non voglio ricomporre.

 

FANDANGO

Estava tudo certo nele: o sorriso,
o modo lento de chegar
ao sítio onde as cervejas
me arrefeceriam para sempre
o coração. Só lhe faltavam as pernas,
que não pude saber como perdera.
Era o dono da taberna, do Fandango,
que eu frequentava nos intervalos
do liceu, sozinho, ou muito depois das aulas.
Às vezes almoçava lá, sabendo que
seria o único a fazê-lo e gostando disso.
O consumo de álcool não dependia,
nesses anos, de quaisquer decretos-lei
sobre a idade. Espaçosa, asseada,
parecia-me a taberna ideal
para quem tinha, a contragosto,
dezasseis anos e nenhum poema.

Da última vez, recebeu-me apenas a senhora.
Perguntou-me se eu sabia. Não, não sabia
que ele tinha morrido «tão novo, coitado».
Ser «novo» adquiria nos seus lábios a força
do muito amor, pois ultrapassara já os setenta.
Mas eu, talvez mais velho, senti-me fulminado
por esse gesto de rara ternura. Só não regressei
porque, alguns dias depois, a porta apareceu fechada.
Nunca saberei se foi ao seu encontro, achando
que uma cadeira de rodas não era companhia de homem.

A morte é como os taberneiros: não pergunta a idade.
Serve-nos, indistintamente, cicuta em copos lavados
e convida-nos de rosto no chão para o último fandango.

 

FANDANGO

In lui era tutto giusto: il sorriso,
il modo lento di tornare
al posto dove le birre
mi avrebbero raffreddato per sempre
il cuore. Gli mancavano solo le gambe,
che non sono riuscito a sapere come perdette.
Era il proprietario della taverna, il Fandango,
che frequentavo negli intervalli
del liceo, da solo, o molto dopo le lezioni.
A volte pranzavo là, sapendo che
sarei stato l’unico a farlo e godendo di questo.
Il consumo di alcol non dipendeva,
in quegli anni, da eventuali decreti-legge
sull’età. Spaziosa, ordinata,
mi sembrava la taverna ideale
per coloro che avevano, controvoglia,
sedici anni e nessuna poesia.

L’ultima volta, mi ha accolto solo la signora.
Mi ha chiesto se sapevo. No, non sapevo
che fosse morto «così giovane, poveretto».
Essere «giovane» dava alle sue labbra la forza
di molto amore, certo aveva già superato i settanta.
Ma io, forse più vecchio, mi sentivo fulminato
da questo gesto di rara tenerezza. Non ci sono tornato
solo perché, pochi giorni dopo, la porta sembrava chiusa.
Non saprò mai se è dovuto all’incontro con lui il pensiero
che una sedia a rotelle non era una compagnia per l’uomo.

La morte è come i locandieri: non chiede l’età.
Ci serve, indistintamente, cicuta in bicchieri puliti
e ci invita con gli occhi bassi per l’ultimo fandango.

 

ESCUDOS HUMANOS

Num intervalo de comentar
a guerra – Bassorá, não esperes
piedade – lembrou-se de lhe perguntar
por Ulisses; se não recordava,
dos tempos de escola, nomes
e episódios cantados na Ulisseia.

«Dá-me outras palavras», pediu
quem o escutava, «não conheço
Portugal de Norte a Sul».
Pois não; nascera em Moçambique
há cinquenta anos e confundia
a guerra de Tróia com a vaga
aparição de golfinhos em Setúbal.
Mas tinha visto Uma Ulisseia
no Espaço. Seria isso?

Dois homens, numa taberna,
enquanto chovia. O terceiro
era eu: aquele que escreve
e não escreve este poema. Entretanto,
Ulisses veio comprar tabaco,
cerveja e pão. Os longos cabelos,
caindo sobre um blusão negro,
as botas cardadas desafiando a chuva.
Não será por acaso que estamos
na Rua Cesário Verde, número trinta
(desculpe, senhor Costa, esta publicidade toda).
A noite e o ódio vêm de novo abençoar
o inferno desigual de todos,
a apagada e vil cerveja que nos junta.

Penélope bem pode esperar.
Esse dano colateral
a que chamamos angústia
serve de montada às Bolsas do Ocidente,
no estertor da última cruzada.

«Até amanhã». Nada podemos fazer.
Oferecemo-nos como escudo
ao peso inútil de mais um dia.
A guerra já está ganha,
a morte é garantida e um poema,
infelizmente, não é uma arma química.

 

SCUDI UMANI

In una serie di commenti
sulla guerra – Bassora, non aspettarti
pietà – si è ricordato di chiedergli
di Ulisse; se non ricordava,
dai tempi di scuola, nomi
e episodi cantati nella Ulisseia.

«Dammi altre parole», ha chiesto
chi lo ascoltava, «non conosco
il Portogallo da Nord a Sud».
Giusto; nacque in Mozambico
cinquant’anni fa e confondeva
la guerra di Troia con la vaga
apparizione di delfini a Setúbal.
Ma aveva visto Uma Ulisseia
no Espaço. Sarebbe questo?

Due uomini, in una taverna,
mentre pioveva. Il terzo
ero io: quello che scrive
e non scrive questa poesia. Tuttavia,
Ulisse è venuto a comprare tabacco,
birra e pane. I capelli lunghi,
cadendo su una giacca nera,
gli stivali cardati sfidando la pioggia.
Non è un caso che siamo
in Rua Cesário Verde, numero trenta
(mi scusi, signor Costa, tutta questa pubblicità).
La notte e l’odio vengono di nuovo a benedire
l’inferno disuguale di tutti,
la birra sbiadita e vile che ci unisce.

Penelope può ben aspettare.
Questo danno collaterale
ciò che chiamiamo angoscia
serve da supporto alle Borse d’Occidente,
nel rantolo dell’ultima crociata.

«A domani». Non possiamo fare niente.
Ci offriamo come scudo
al peso inutile di un altro giorno.
La guerra è già vinta,
la morte è garantita e una poesia,
purtroppo, non è un’arma chimica.

 

APEIRON

à memória de Filomena Murteira

I

Anaximandro, Anaxágoras, Empédocles.
Foi pela sua boca que primeiro
ouvi estes nomes. E julguei-os desejáveis,
num tempo em que nada ou quase nada
o era. Só gostava de música violenta,
de corpos a quem o rápido prazer bastasse.
Escrevia, sem saber, «poesia metafísica» da pior.

Por sua causa, afinal, errei o curso
durante perto de dois anos. Talvez
me devesse ter ficado pelos pré-socráticos.
Mas «errar», para mim, queria apenas dizer
«deriva» (desconheço o luxo cristão
do arrependimento). De certo, nas nossas
vidas, existe aquilo que por fim – ou
desde sempre – as nega. Tem mais razão
do que Hegel o obscuro Teógnis de Mégara.

II

Passados tantos anos, parece-me estranho
que nunca nos tenhamos encontrado em Coimbra,
a sua terra. Um outro rio, o menos heraclitiano
de todos, nos fez dar grandes passeios em Santarém
e em Lisboa. Só os últimos nos permitiram o «tu»
que as cartas vagarosamente reiteravam.
Por razão nenhuma, à margem da filosofia.

Aqui, neste café de bairro onde o seu pai
lhe falou sem pressa da diferença entre moral e ética,
modero um pouco mais as cervejas, guardo a sua sombra,
percebo a indeterminada força que nos conduz para a morte.

Ao intervalo, breve, chamamos amizade.

 

APEIRON

alla memoria di Filomena Murteira

I

Anassimandro, Anassagora, Empedocle.
È stato dalla sua bocca che per la prima volta
ho ascoltato questi nomi. E li ho giudicati desiderabili,
in un tempo in cui nulla o quasi nulla
lo era. Godevo solo della musica violenta
e di corpi a cui bastasse un rapido piacere.
Scrivevo, senza saperlo, «poesia metafisica» della peggiore.

A causa sua, alla fine, ho sbagliato corso
per quasi due anni. Forse
avrei dovuto restare con i pre-socratici.
Ma «sbagliare», per me, voleva solo dire
«deriva» (disconosco il lusso cristiano
del pentimento). Di certo, nelle nostre
vite, esiste quello che infine – o
da sempre – le nega. Ha più ragione
di Hegel l’oscuro Teognide di Megara.

II

Dopo tanti anni, mi sembra strano
che non ci siamo mai incontrati a Coimbra,
la sua terra. Un altro fiume, il meno eraclitiano
di tutti, ci ha fatto fare grandi passeggiate a Santarém
e a Lisbona. Solo gli ultimi ci hanno permesso il «tu»
che le lettere lentamente ripetevano.
Per nessuna ragione, al margine della filosofia.

Qui, in questo caffè di quartiere dove suo padre
gli ha parlato senza fretta della differenza tra morale e etica,
modero un po’ di più le birre, conservo la sua ombra,
percepisco la forza indeterminata che ci conduce alla morte.

All’intervallo, breve, chiamiamo amicizia.

 

GRANDE HOTEL DE PARIS, QUARTO 312

à memória de Jorge de Sena

Um amigo meu disse-me para nunca
meter gaivotas num poema.
O que seria fácil noutra cidade qualquer,
onde o ruído do seu voo não acompanhasse
tão de perto a minha insónia, a vaga
inquietação do teu corpo adormecido.

Alastra, da Sé aos Clérigos, um alarme branco
que a janela deste quarto aceita há mais de
duzentos anos. Serão outras, as gaivotas
e as cabeças que, depois de muito ou nenhum
sexo, se rendem ao linho brasonado dos lençóis.
Mas eu vim para a casa de banho escrever
este poema simples, cheio de versos inúteis,
que me exige as horas que não tenho.

Sem ele, teria sido um dia grácil e ligeiro
como a morte, duro e inaceitável
como a vida. Pois consegui, antes destes
adjectivos todos, comprar o belo e o sublime
por menos de oito euros. E o livro que Jorge
de Sena dedica, sem gaivotas, «à cidade do Porto».

Deveria ser fácil como um beijo, este poema.
Mas não. Chegamos à janela e só vemos
lixo, prédios devolutos, uma coroa
da terra a esboroar-se.
E invejamos,
das gaivotas, a pungente desrazão do voo,
essa alegria de não ter palavras
sob o céu limpo que nos mata.

 

GRANDE HOTEL DE PARIS, CAMERA 312

alla memoria di Jorge de Sena

Un mio amico mi ha detto di non
mettere mai gabbiani in una poesia.
Il che sarebbe facile in qualsiasi altra città,
dove il rumore del loro volo non accompagnasse
così da vicino la mia insonnia, la vaga
irrequietezza del tuo corpo addormentato.

Dilaga, dalla Cattedrale fino ai Clérigos, un allarme bianco
che la finestra di questa stanza accetta da più di
duecento anni. Saranno altri, i gabbiani
e le teste che, dopo molto o niente
sesso, si arrenderanno al lino blasonato delle lenzuola.
Ma sono venuto in bagno per scrivere
questa semplice poesia, piena di versi inutili,
che esige da me le ore che non ho.

Senza loro, sarebbe stato un giorno gracile e leggero
come la morte, duro e inaccettabile
come la vita. Sono riuscito, prima di tutti questi
aggettivi, a comprare il bello e il sublime
per meno di otto euro. E il libro che Jorge
de Sena dedica, senza gabbiani, «alla città di Porto».

Dovrebbe essere facile come un bacio, questa poesia.
Ma no. Arriviamo alla finestra e vediamo solo
rifiuti, edifici vuoti, una cerchia
di terra che si sgretola.
E invidiamo,
dei gabbiani, la pungente irragionevolezza del volo,
questa gioia di non avere parole
sotto il cielo limpido che ci uccide.

Un commento su “Manuel de Freitas, Cinque poesie da “Poco allegretto”

Rispondi

Inserisci i tuoi dati qui sotto o clicca su un'icona per effettuare l'accesso:

Logo di WordPress.com

Stai commentando usando il tuo account WordPress.com. Chiudi sessione /  Modifica )

Google photo

Stai commentando usando il tuo account Google. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto Twitter

Stai commentando usando il tuo account Twitter. Chiudi sessione /  Modifica )

Foto di Facebook

Stai commentando usando il tuo account Facebook. Chiudi sessione /  Modifica )

Connessione a %s...

Questo sito utilizza Akismet per ridurre lo spam. Scopri come vengono elaborati i dati derivati dai commenti.

%d blogger hanno fatto clic su Mi Piace per questo: